terça-feira, agosto 27, 2013

Boston - Até o sol nascer amarelinho

Decidi ir a Boston porque queria saber como era Harvard. Juro, foi só por isso. Que mongol, podem pensar alguns. Que sorte, penso eu. Por mais que ela não seja nenhuma das estrelas principais dos EUA, já entrou pra minha lista de lugares queridos. Boston obviamente não é só Harvard. É uma cidade lindamente posicionada às margens do Charles River, limpa, com parques verdes onde se pode descansar bastante, muita história pra ser vista e aprendida, além de uma gente extremamente simpática. Por isso, seis meses depois da minha ida, ao ter notícia das explosões a bomba em uma de suas principais vias, fiquei imaginando como um atentado poderia ocorrer num lugar tão tranquilo e torcendo para que ninguém tivesse se machucado muito e a cidade conseguisse continuar sendo do jeitinho como a conheci.


Energia zero quando cheguei a Boston. Só tinha dormido no avião, no voo noturno vindo da outra costa do país. Estava sonhando com a possibilidade de entrar no hostel e conseguir uma caminha livre às 8h da manhã. Obviamente não havia. Quase chorei na frente do mocinho da recepção. Respirei fundo, guardei a mala no locker e saí pela manhã nublada morrendo de saudades do sol da Califórnia. Atravessei um parque ainda vazio até o Starbucks mais próximo, cujo café, apesar de péssimo como todo café americano, espantaria meu sono. A loja estava cheia, então coloquei a comida numa bancada alta e fiquei comendo de pé. Nisso, um senhor sentado à mesma mesa trabalhando num laptop levantou, buscou um banco lááá do outro lado e, com um sorriso, me disse “Now you can sit”. Ai, meu Deus, não aguento tanta fofura!!!! Tocava música brasileira (trilha sonora oficial de qualquer Starbucks do mundo), o bagel com cream cheese estava ótimo e, quando saí da loja, o sol já havia aparecido e aquecido toda a cidade. Alegria, alegria.


Agora revigorada, fui seguindo a Freedom Trail, um caminho que percorre os principais pontos históricos da Old Boston (uma graça!) e do Financial District até chegar a Waterfront, o porto revitalizado. Um passeio delicioso por parques, rua escondidas e prédios antiquíssimos, que hoje contrastam com os arranha-céus. Legal imaginar como era a vida ali nos séculos passados e toda a agitação política e econômica da cidade nessa época. Ao fim da caminhada, os deques de Waterfront são o lugar perfeito pra descansar, aproveitar a brisa, comer um bom prato de frutos do mar e apreciar a vista na companhia das gaivotas. Naquela região também fica o Boston Tea Party Ships and Museum, uma réplica da caravela onde, pelo que consegui ver, acontece alguma encenação teatral do famoso protesto contra os ingleses. Não quis pagar pra entrar, mas pude observar, de um banquinho ao sol na margem oposta, uma galera dando uns gritos e jogando caixas na água. Numa das minhas zilhões de tentativas de tirar foto de mim mesma no Columbus Park (lindo também!), apareceu uma moça com uma criança e se ofereceu pra bater uma foto. E acabou tirando várias! A mulher se empolgou, me mandava mudar de lugar pra ter várias opções de cenário. Hahaha Cara, faltou pouco pra eu abraçar a fofa. As pessoas daqui são muito boazinhas.

Segundo e último dia em Boston, peguei o metrô pra Cambridge, onde fica a universidade de Harvard. É um campus gigante, com muitas árvores e esquilos, cada prédio mais bonito que o outro, quase todos no mesmo padrão de tijolinhos que domina a cidade. Super lindo e agradável, mas não tem o cabeção do Kennedy (quem estudou na PUC-RJ sabe do que estou falando), então perde metade da graça. Em compensação, tem a estátua do Seu Harvard. Aí o povo deve achar que é estátua de santo e fica passando a mão no pé dela. Acho que é pra ficar mais inteligente, então não perdi tempo e fui lá dar minha acariciada. Vai que um dia eu vá a Harvard pra estudar... Na dúvida, melhor garantir.


Metrô de volta a Boston, passeio pela Charles Street, em Beacon Hill, uma das regiões mais famosinhas da cidade. Cheia de lojinhas, todas as construções trabalhadas nos tais tijolinhos e uns tesouros escondidos nas ruas do entorno, como jardins particulares e becos. Tudo é muito lindo por aqui, então a fama faz sentido. Fiquei pensando que, se eu morasse em Boston, seria nessa vizinhança, com certeza. Repara não, fiquei rica de repente. Então voltei à realidade e continuei andando e aproveitando o belo dia. Entrei de novo naquele parque que cruzei antes de parar no Starbucks (era apenas o Boston Common, o mais importante da cidade, e eu não tinha dado quase nenhuma importância por causa do sono) e dessa vez ele estava tomado de crianças correndo, turistas, bichinhos, a grama toda verdinha iluminada pelo sol, uma belezura. 


A caminhada prosseguiu até The Esplanade, um parque feliz onde se pode sentar numa das espreguiçadeiras do deque e apreciar a vista do rio, das pontes e do MIT, universidade quase tão célebre quanto Harvard. Vale a pena vir até aqui, podem anotar. Momentos de relaxamento no meio de passeios turísticos são altamente recomendáveis. Sem contar que eu quase não vi turistas por ali, só locais. Ao contrário da Boylston Street (a rua do atentado de abril/2013), aonde fui em seguida e, por ter um monte de shoppings, lojas, Apple Store (fui bem feliz lá) e centros empresariais, tem um monte de turistas. Nada comparado a Paris ou Nova York, mas tem. E o caminho da Esplanade até lá passa por Back Bay e suas ruas super fofas e arborizadas, com pequenas lojinhas, bares, cafés e prédios todos iguais e enfileiradinhos (olha o tijolinho aí!). Na Boylston fica a Prudential Tower, uma torre com um observatório de 360º da cidade. Num dia ensolarado, como o que eu fui, e com áudio-guia incluído no preço, é uma experiência imperdível! Meu amor por Boston, que já vinha se desenvolvendo desde o dia anterior, se concretizou ali, a 50 andares de altura. Pra terminar o dia (e a estadia), comi um mega hambúrguer, indicação da minha amiga Dani, enquanto olhava o crepúsculo pela janela do restaurante. 

Vontade de abraçar Boston. Uma cidade tão legal quanto ficar falando Massachusetts rápida e repetidamente. Fica a dica.




domingo, abril 14, 2013

São Francisco II - Eu e a ponte, a ponte e eu


Então ele veio, o tão especial terceiro dia que mudou minha relação com São Francisco para todo o sempre. Ainda era de manhã cedinho, um friozinho safado, tudo nublado e eu esbaforida pra pegar o bondinho pela primeira vez até o Pier 33, de onde saem os ferries em direção à ilha de Alcatraz. E aí eu chego na estação do bonde e, cara, ela está completamente tomada por turistas formando uma fila absurda de grande. Não tinha mais onde enfiar gente. Meu embarque no ferry tinha hora marcada e não ia rolar ficar esperando. Sorte que ali era a Market Street, uma das principais ruas da cidade e por onde passam os principais meios de transporte público. Bastou atravessar a rua e apelar para um outro tipo de bonde, mais parecido com um ônibus. Antigo, cheio de charme e fechado. Resumindo: fugi do frio, ganhei uma nova experiência em locomoção e ainda cheguei ao píer na hora certa. Ponto pra Marcelinha!

Sério, estava um frio tão bizarro nesse dia que ficar na parte de fora do ferry pra tirar fotos da ilha de Alcatraz se aproximando era um desafio e tanto. O barco vai chegando mais perto, a gente não para de tirar fotos, mas também vai dando um certo medinho. Parece que a ilha está abandonada, com aqueles prédios de cor pálida cheios de janelas fechadas. O maior silêncio. Só se ouve o barulho do motor. E o tempo super nublado formando uma aura ainda mais assustadora.
Alcatraz, super acolhedora

Aliás, Alcatraz tem por si só uma atmosfera meio estranha. Ainda assim, é um passeio imperdível em São Francisco. Ao andar por seus corredores gélidos, observando todas aquelas celas, é impossível não imaginar como era Alcatraz em sua época mais ativa. O áudio-guia (tem em português!) é um material riquíssimo: informa o trajeto que deve ser percorrido no interior da prisão (celas, solitárias, refeitório, biblioteca, postos de visitas) e conta várias histórias de tentativas de fuga, todas fracassadas, algumas impressionantes. Também há alguns testemunhos de ex-detentos narrados por umas pessoas com um sotaque tão forrrrrrte do interiorrrrrr do Brasil que chega a ser diverrrrrrrtido. Na parte final do tour a gente visita uma parte externa do prédio principal, próxima à baía. E para minha surpresa, o céu estava azul! O dia de repente ficou lindo e claro, e a vista pra cidade e seu skyline, embaixo daquele solzinho, me fez muito feliz!

Esta manhã em São Francisco já me cativou totalmente. De volta à cidade, eu era um ser esverdeado de tanta fome. Segui uma dica de alguém na internet e fui ao Pier 39 experimentar a famosa clam chowder. Pier 39 é um lugar de turistas, bonitinho e reformado, com um aquário, vários restaurantes de frutos do mar (afinal, SF vive disso), barracas de frutas, lojinhas, banquinhos ao ar livre, vista da baía e de vários grupos de leões marinhos fofinhos tomando um solzinho. Ou seja, adorei. E clam chowder... ah, clam chowder. É uma sopa de moluscos, cebola, aipo, batata e bacon servida no pão. É a coisa mais incrivelmente deliciosa que se come nessa cidade. O sanduíche de caranguejo não fica muito atrás na minha preferência, mas a chowder abusa do direito de ser boa. E se eu já era feliz de manhã, eu era muito feliz depois do almoço. Um passeio pela região me levou ao Fisherman’s Wharf (também famoso pela culinária) e finalmente à Ghirardelli Square, onde ficava a fábrica e hoje fica a loja/lanchonete do melhor chocolate de São Francisco. Eu só conhecia a fama, mas foi entrar na lojinha e ganhar uma amostra pra ter vontade de comprar tudo. Meu paladar indo ao céu e voltando mil vezes de tanto contentamento.

Chegou também o momento mais esperado por mim. Aluguei uma bike, a Francisca, e fui seguindo todo o longo percurso da Marina ao Presidio me sentindo atleta, mas alguns trechos têm umas subidas puxadíssimas. É bastante cansativo, mas eu não desisti. Afinal, ao longe eu já conseguia ver meu objetivo, aquela coisa imponente que se confunde com a paisagem: Golden Gate Bridge. Ela existe! Ela é enorme. E é linda, muito mais do que eu poderia imaginar. Como pode a pessoa cair de amores por uma ponte, me explica? Abrindo aqui ainda mais meu coração cheio de milhas: atravessar a Golden Gate de bicicleta foi um dos momentos mais mágicos de todas as minhas viagens. Não parou de ventar forte nem um minuto, o sol estava todo esplendoroso refletindo nas águas azuis da baía e eu esqueci o cansaço. Fui tomada por uma onda tão grande de energia, de satisfação, uma felicidade tão intensa, que eu não conseguia parar de pedalar. E soltava uns gritos de alegria (ainda bem que a ciclovia estava quase vazia, pois eu parecia uma louca) e não sabia se ria ou chorava porque tudo fugia ao meu controle e acontecia ao mesmo tempo. Eu olhava pra cima e via aquela estrutura toda laranja contrastando com o azul do céu. Vento e sol no rosto, lágrimas e sorrisos. Eu era a pessoa mais feliz do mundo. E a mais descontrolada. (Nossa, esse relato ficou a maior viagem. Parece até que eu fumei alguma coisa).

E aí que do outro lado da Golden Gate Bridge fica Sausalito, uma cidade pequena e tranquila, com algumas subidas e descidas um tanto íngremes. Quando a subida era muito puxada, eu saltava da bicicleta e ia andando, empurrando minha companheira rua acima. Menor chance de fazer um esforço maior nesse momento. Chegando na avenida principal, onde fica o porto de onde sai o ferry pra São Francisco, fiquei com medo de seguir pela rua e subi a calçada de bike. Tomei esporro de uma senhorinha. Ela estava certa; eu, errada. O barco tinha horário certo pra sair e eu tinha horário limite pra devolver a bicicleta. A luz foi caindo, foi ficando mais frio, o tempo foi passando e nada do ferry. Comecei a ficar meio tensa vendo São Francisco se iluminando lá do outro lado da baía e eu com a bike ainda em Sausalito. Quando chegou a embarcação, quase meia hora depois, liguei desesperada pra loja gastando todo o meu inglês, dando um monte de desculpas e pelo amor de Deus não me cobrem multa, a culpa foi do ferry bla bla bla. Tudo certo. Os mocinhos eram muito compreensíveis e fui recebida na loja com uma salva de palmas. Ok que eles aplaudiam todo mundo que chegava pra devolver as bikes, mas eu me senti super vitoriosa.

Último dia em São Francisco, a cidade que agora eu já amava. Saí caminhando por entre os prédios enormes do financial district até o famoso Ferry Building, a principal construção do porto de SF, e finalmente peguei meu primeiro bonde clássico. A linha que sai da Embarcadero Station faz um percurso ridiculamente pequeno, mas segue ladeirona acima pela California Street rumo à região de Pacific Heights. E andar de bonde em São Francisco é muito legal! Mesmo quando o condutor está em fase de treinamento e você acha que o bonde não vai se segurar no trilho e vai sair desembestado rua abaixo. Pacific Hights é bonito, viu? Bairro de gente fina, gente chique, gente elegante. Casas vitorianas, ruas agradáveis, pouca agitação e a Alta Plaza, no ponto mais alto dali, uma grande praça “onde a elite de SF gosta de relaxar”, segundo o meu guia. Opa, então foi lá mesmo que eu sentei num banquinho com vista privilegiada pra baía, fiz um lanchinho (pobreza invadindo o território da elite) e descansei feito diva.

No solzinho do fim da tarde, mais um bonde pra voltar ao hostel. Dessa vez na linha maior (que sai da Hyde Street em frente à Ghirardelli Square) e de pé, penduradinha nos ferros do bonde, que nem o povo faz nos filmes. Não só eu, né? A turistada toda curte fazer isso. Fica bombando de gente de pé segurando nos ferrinhos e curtindo a brisa no rosto. Mais tarde, no aeroporto, não tinha como não pensar naqueles primeiros dias de viagem. A costa leste dos EUA estava à minha espera, mas meu coração já apertava de saudades do lado oeste. Não queria ir embora. Não queria deixar a Califórnia pra trás. 

sábado, abril 13, 2013

São Francisco I - Vento, ventania

“If you’re going to San Francisco...”

São Francisco era o lugar que eu mais queria conhecer nessa viagem. Vai ver foi por causa dessa mega expectativa que à primeira vista não achei nada de mais. Mas graças aos deuses padroeiros dos viajantes essa ideia inicial foi embora pra sempre. Passei quatro dias lá e só a partir do terceiro a cidade me fez gostar dela de verdade. Mas também, quando comecei a gostar, foi uma coisa tão intensa que eu pude ver e sentir que o tanto que falam sobre ela tem toda razão de ser dito. 

São Francisco é a estrela do Estado da Califórnia. As ruas são uma graça, as casas vitorianas são fofas, os bondes são um charme e a vista pra baía e pra Golden Gate é realmente de tirar o fôlego. Então, por que cargas d’água eu demorei dois dias pra me encantar com isso tudo? Não sei. Assim que desembarquei, foram 500 voltas no aeroporto até encontrar o lugar correto do shuttle, já que as placas não ajudavam. Depois disso, mais um trânsito absurdo até a cidade. Estava sol, mas o vento constante que bate congela seus ossinhos. Aposto que as roupas secam rapidinho por aqui. Cheguei no hostel, abri a porta do quarto e achei que um vendaval havia atingido tudo. Parecia um cenário pós-twister. Não havia espaço livre no chão. Estava tudo tomado por roupas, papel, latas de cerveja, pacotes de biscoito. Gente, São Francisco está em guerra e ninguém me avisou? Devo ter ficado um tempo parada na porta, olhando abismada praquela confusão toda. Então um alemãozinho, meu roommate, já veio me cumprimentando cheio de simpatia. Quando perguntei o que havia acontecido ali, ele deu uma risadinha e fez uma mea culpa em nome dos meninos do quarto.
E eu fui andar, né? Que é o que mais faço nessa vida de mochileira. Chinatown, com seus prediozinhos característicos do oriente e uma infinidade de produtos on sale, quase nada de muito útil. Ok, eu nunca gostei de nenhuma chinatown e tenho implicância com todas, admito. Não é por mal. Eu só não acho a menor graça. E ainda foi o primeiro lugar que visitei em São Francisco. Aí depois não gosto tanto da cidade e não sei o porquê... affff! Ok, dessa vez a culpa foi minha. Sei lá, acho que tenho uma esperança de encontrar uma chinatown de que eu goste. Essa, especificamente, fica bem próxima ao financial district e, também confesso, os prédios de escritórios me chamaram muito mais a atenção. Não tem como não admirar a arquitetura bizarra da Transamerica Pyramid. Pra mim ela é um dos grandes (enormes, aliás) símbolos da cidade.

Painel na Coit Tower
Uma outra marca de lá, que de fato marcou todos os meus passos, mentalmente e fisicamente, são as ladeiras. Meu Pai eterno. A geografia de São Francisco é praticamente um trilho interminável de algum brinquedo radical da Disney. “A cidade é cheia de ladeiras”, é o que a gente sempre ouviu falar. Mas só chegando aqui pra perceber que não é brincadeira. Algumas ruas estão dispostas num ângulo que não dá pra acreditar como os pedestres e os veículos não saem rolando até lá embaixo. E pra subir, gente? Pra chegar à Coit Tower, uma torre de observação que, obviamente, fica zilhões de metros acima da normalidade, no alto de Telegraph Hill, foi preciso educar meu cérebro e meu corpo e convencê-los de que eram capazes de passar a pé por tamanho sacrifício. Deu certo. A subida foi árdua e lenta. Alcancei a torre com um palmo de língua pra fora, mas valeu a pena. Os painéis gigantes pintados no saguão e a vista que se tem do mirante valem todas as calorias perdidas. Viajar também é vencer nossos próprios limites... rsrs

Continuando no assunto ladeira (porque são muitas mesmo, então o tema rende), São Francisco tem a Lombard Street, a rua mais diferente de todas. Justamente por ser a mais íngreme teve que ser feita em curvas e é famosa por ser a mais sinuosa do mundo. Então os carros vão passando bem devagar e a turistada vai tirando fotos. E pra chegar lá, adivinha?, sobe-se uma outra ladeira pesada. Ainda era meu primeiro dia na cidade, mas a essa altura (literalmente!) do campeonato, eu já traçava meu percurso tentando passar pelas transversais às piores ladeiras, observando o que era subida e buscando as descidas. Toda trabalhada no planejamento estratégico.

À noite, os alemães bagunceiros do quarto se tornaram meus melhores amigos. Eram dois engraçadíssimos e sem noção alguma que me fizeram gargalhar a noite toda, além de um terceiro calmo e sereno. Esse último foi minha companhia durante todo o dia seguinte na visita ao California Academy of Sciences e sua fila de duas horas porque era o único dia do mês com entrada gratuita. As principais atrações do museu são um simulador de terremoto e a exibição de filmes na cúpula do planetário. Tudo usando a cidade como exemplo. Demais! Depois fomos caminhando por toda a extensão do Golden Gate Park até Ocean Beach. Longe, viu? E estava um frio bacana, com gente encasacada acendendo fogueira na areia, e nem era pra ficar tocando violão em volta. No fim do dia, de volta ao hostel, encontrei Eva, a suíça que estava no meu quarto em San Diego. Posso ficar me repetindo e dizer que eu simplesmente adoro esses encontros fortuitos pelo mundo, em que estou num país que não é o meu e esbarro com um conhecido que também vem de outro lugar? É muito louco. E é bom à beça! A atividade desta noite no hostel era cinema + ice cream for free. E dessa forma terminamos o dia. O alemão, a suíça e a brasileira. Não sei se dormi muito durante o filme, mas ele terminou sem fazer o menor sentido. Pelo menos tomamos sorvete de graça.

Só pra deixar bem enfatizado: faz frio mesmo em SF. Não é frio de neve. É frio de vento. Como diz um personagem do filme "Alcatraz - Fuga impossível", "um amigo disse que o inverno mais rigoroso que ele enfrentou foi um verão em São Francisco". Ou seja, for those who come to San Francisco, be sure to wear... A SWEATER!


domingo, março 31, 2013

Los Angeles III - O mundo mágico da Warner Bros


O passeio por Beverly Hills pode não ter sido o mais enriquecedor do universo, intelectualmente falando. Mas foi através dele, numa conversa informal com o guia e o resto do grupo, que eu fiquei sabendo do melhor programa pra se fazer em Los Angeles: um tour pelos estúdios da Warner Bros. Era meu último dia na cidade e a cereja do bolo realmente havia ficado pro final. Voltei pro hostel cheia de pressa pra entrar no site da Warner, sem saber se ainda haveria visitas guiadas naquele dia. E tinha, pra uma hora depois. Peguei um taxi correndo. Minhas séries preferidas são produções da Warner e eu só me dei conta disso ao chegar lá. No tour, a gente sobe num daqueles carrinhos de golfe bem grandes e visita os sets, não só das séries, mas dos filmes produzidos por eles. O local onde Peter Parker beija Mary Jane em “Spider Man”, o cinema de “O artista” e de “The big bang theory”, além do micro quadradinho (na TV parece infinitamente maior) do futebol americano de “Friends”. Na porta de cada um dos imensos estúdios há uma placa com a lista das produções filmadas ali. De “Inception” a “Two and a half men”, de clássicos a besteiróis atuais. Eu estava exatamente onde os maiores filmes da história do cinema e as séries de maior sucesso da TV foram rodados, e não conseguia acreditar naquilo. Pega a minha emoção no tour da Universal e multiplica por mil, pega minha alegria do dia do parque e eleva à enésima potência. Foi indescritível.


O tour inclui ainda uma visita a um pequeno museu de carros usados nas produções (Batman, Se beber não case, Matrix, The Flinstones), a algum estúdio que não esteja sendo usado no momento do tour (nesse dia era o de “Pretty little liars”) e a um museu incrível de figurinos, com um andar inteiro dedicado a Harry Potter, incluindo roupas, objetos e criaturas (Dobby, o elfo, está aqui!). Uma pena que fotos não sejam permitidas, mas os visitantes podem colocar o chapéu seletor e ele anuncia pra qual casa de Hogwarts você iria, que nem no filme. Tipo criança. Muito nerd. Muito legal!

No final, a guia ainda nos levou na parte de um galpão que não parecia ter nada de especial. Abriu a portinha e entramos nada menos que no cenário de Friends!!! AAAAAAAAAAAAA!!!! Caraca! Passei anos acompanhando esse negócio, até hoje fico assistindo e rindo das mesmas piadas. Essa série marcou a vida de um monte de gente, a minha inclusive. Eu só conseguia dizer “Oh my God” e a guia só sorria e falava “I know”. Em nenhum momento durante todo o tempo em que planejei essa viagem eu imaginei dar de cara com isso. Aliás, nem sabia que isso existia pra visitação. Nossa, que surpresa!! Que loucura, gente. Sempre sonhei trabalhar num lugar assim. Deus, me conceda isso um dia. Por favor.

Pra terminar minha surpreendente estadia em LA, mais uma surpresinha: o letreiro “Hollywood”, aquele lá em cima da colina, não tem qualquer iluminação à noite. E eu não tinha tirado nenhuma foto dele! O shuttle passaria no hostel às 6h30 pra me buscar. Às 6h eu saí esbaforida pelo Hollywood Boulevard porque sabia que a algumas quadras dali dava pra avistar o letreiro. Estava amanhecendo ainda. Ninguém na rua, além de um ou outro mendigo desconhecido dormindo na calçada da fama. Quando parei, veio um carinha atrás de mim, tipo saindo da balada, todo ofegante: “Nossa, como você anda rápido! Estou desde lá atrás tentando te alcançar” (oi??). Que medo, credo! Atravessei a rua, despistei o maluco e voltei correndo pra não perder o shuttle. Mas consegui a foto, rá! Praticamente um blockbuster de aventura hollywoodiano. Foi assim que me senti. Los Angeles, querida, de sem graça você não tem nada. Eu volto, pode esperar.

Los Angeles II - All I wanna do is have some fun

 
Segundo dia em LA, achei que eu tivesse 10 anos e passei o dia inteiro no Universal Studios. Meu Deus, eu me acabei que nem uma criança! Da hora que o parque abriu até a hora que ele fechou eu fiquei lá dentro esquecendo a maturidade que tenho e sendo muito feliz! Assim que entrei, então, foi ridículo. Os caras colocam aquela musiquinha que abre todos os filmes da Universal e aí eu sei lá se achei que estava num filme, sei lá se achei que estava de volta à Disney depois de 15 anos, só sei que me bateu uma emoção tão grande que os olhos encheram d’água. E eu morrendo de vergonha, um monte de criança em volta e só eu chorando, onde já se viu? Universal Studios Hollywood é demais, cheio de simuladores 3D, 4D... O da Múmia, apesar de durar só uns 2 minutos, é o máximo! O dos Simpsons e o dos Transformers são ótimos também. Mas pra mim nada barra o tour “Inside the movies”, em que você pega tipo um trenzinho e faz um passeio pelos estúdios da Universal. Simplesmente as locações onde os caras filmam os longas que eu, você e o mundo todo conhecemos. Pra quem estudou Comunicação e é apaixonado por cinema e TV como eu, essa é uma experiência imperdível. 
Hitchcock
Desperate Housewives














Los Angeles é a cidade onde se passa o dia inteiro brincando no parque e depois se vai ao teatro. Ou seja, nada de descanso. Eu disse que era só entretenimento, então não dava pra perder tempo. Cirque du Soleil me esperava no Dolby Theater. E eu, que nunca tinha visto esse espetáculo ao vivo, confesso que estava mais ansiosa pra conhecer o local da entrega do Oscar. Iris, o show fixo daqui, é sobre cinema e tem uns números maravilhosos. Mas juro que eu fiquei o tempo todo, desde a calçada na frente do teatro, passando pelas galerias, pelas escadas, pelo hall e pelo banheiro, imaginando aquela gente toda emperequetada  no dia do Oscar andando por ali. Julia Roberts, toda trabalhada no longo, tendo que levantar aquele vestido enorme pra fazer um xixizinho no mesmo lugar que eu! E o teatro em si nem é grande. Vendo pela TV parece uma coisa absurda. É um teatro normal, menor que o Municipal aqui do Rio, como pode? Meu lugar nem era na primeira fila, mas eu super senti que o Bradley Cooper já havia sentado ali. Coisa de pele. :)



Já que se está mesmo em Los Angeles, não vamos abrir mão de toda essa vibe “celebridades”, certo? Então partiu tour guiado por Beverly Hills, lugar chique, lugar fino, lugar das mansões habitadas pelos ricos e famosos. O passeio em que a futilidade grita e você acha que atrás do insulfilm de todo carro está uma estrela do cinema. “Quando um carro passar, acenem!”, dizia o guia, “Certa vez umas meninas acenaram, o carro parou e o David Beckham abriu o vidro pra tirar foto com elas”. Gente. Esqueci Julia Roberts fazendo xixi no Oscar. Meu foco agora era todo no Beckham. Que não apareceu, uma lástima, mas a gente deu tchauzinho pra todos os carros que passaram, sem exceção. Atrás do vidro fumê alguma alma famosa deve ter correspondido meu aceno. 
Casinha humilde da Julia Roberts
E o tour continuou. Uma mansão maior e mais bonita que a outra. Uma que foi de Elvis Presley, outra de Walt Disney, e mais outra de Charles Chaplin (que hoje é de quem? Julia Roberts! Voltamos a pensar no xixizinho); uns minutos em frente à casa onde morreu Michael Jackson, afinal, homenagens devem ser feitas. Mas até aí, nada da casa que eu mais queria ver. O guia já dava sinais de que o tour estava chegando ao fim e eu só pensava “Não acredito que eu vim até aqui e não vou ver essa mansão”. Mas aí o amado guia entrou em outra rua, atravessou a avenida principal fora do sinal, virou à esquerda e anunciou: “Aquela casa ali, no final, é a Playboy Mansion. Na frente dela há uma pedra com um botão que é um interfone. Quem quiser ser coelhinha ou falar qualquer coisa com eles, aperte o botão”. Quase morri de emoção! Nunca estive tão perto do vovô Hefner, gente! O diálogo a seguir, entre o guia e eu, é verídico:

- Eu trabalho na Playboy. Queria deixar um recado pro Mr. Hefner.
- Como assim trabalha na Playboy? O que você faz?
- Verdade. Olha o meu cartão. (Mostrei meu cartão)
- Nossa! Nunca tive ninguém da Playboy no meu grupo! Vai lá, toca o interfone.

Eu fui. Toquei. O grupo todo em volta, em silêncio.

- Pois não.
- Oi. Eu sou do Brasil, trabalho na Playboy de lá e gostaria de convidar o Mr. Hefner a nos visitar. Estou com meu cartão aqui. A quem posso entregá-lo?
- Pode deixar aí na cerca, perto do portão.

Pronto. Eu tremia de nervoso, mas escrevi um convite pro vovô no meu cartão de visitas, o deixei bem posicionado na cerca e tirei uma foto dele pros amigos acreditarem na minha cara-de-pau. Até hoje não tive retorno de Hugh. Mas ainda acho que um dia ele vai tocar a campainha lá do trabalho e aparecer na nossa porta vestindo aquele roupão vinho.

Detalhe do portão da mansão que foi de Walt Disney